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Viajar com cachorro: como saber se ele está preparado?

há 15 horas
15 min de leitura

Viajar com cachorro é uma delícia, né?


Bom... pode ser uma delícia. 😅


Tem cachorro que vê uma mala e já começa a comemoração. Entra no carro feliz da vida, chega num lugar novo querendo cheirar absolutamente tudo e, pouco tempo depois, já está deitado como se morasse ali há três anos.


Também tem aquele que provavelmente olha para a família e pensa: “por que vocês estão fazendo isso comigo?”.

Nenhum dos dois está errado.


VIAGEM COM CACHORRO, VIAGEM PET FRIENDLY

Eu viajo com cães desde 2012 e trabalho profissionalmente com turismo pet friendly desde 2017. Nesse tempo, uma das perguntas que mais recebi foi:

“Meu cachorro precisa ser adestrado para viajar?”


Ele não precisa saber dar a pata, rolar, fingir de morto, ser expert em agility ou mestre do autocontrole. Alguns aprendizados ajudam muito e vamos falar deles daqui a pouco, mas, antes de pensar no que ensinar ao cachorro, existe uma pergunta que considero muito mais importante: meu cachorro está preparado para viver bem a viagem que eu estou planejando?


Porque levar o cachorro junto só faz sentido quando aquela experiência também pode ser boa para ele.

Esse tem que ser o ponto de partida.


Seu cachorro não precisa estar preparado para “viajar”. Precisa estar preparado para aquela viagem

Às vezes falamos sobre “viajar com cachorro” como se fosse uma única coisa, mas pense em quantas experiências completamente diferentes cabem dentro dessa expressão.


Passar um final de semana numa casa tranquila no campo é uma viagem. Ficar num resort movimentado também. Fazer trilha, passar dois dias numa pousada pequena, viajar seis horas de carro, pegar avião, acampar ou participar de um passeio com vinte cães são experiências muito diferentes para nós e, principalmente, para eles.


Por isso, saber que um cachorro “viaja bem” ainda diz pouco.


Viaja bem para onde? Como? Com quem? Para fazer o quê?


Um cachorro reservado, que prefere manter distância de outros cães, pode viver uma viagem maravilhosa com sua família numa hospedagem tranquila. Isso não significa que ele vá se sentir confortável numa experiência com um grupo grande.


Outro pode amar trilhas e lugares novos, mas passar muito mal no carro.

Tem cachorro que adora gente, festa e movimento, mas não consegue descansar fora de casa.

E tem aquele que dorme a viagem inteira no banco traseiro, chega ao hotel, dá duas cheiradas no quarto e pronto: mudou de endereço. 😂


Por isso eu gosto de pensar em compatibilidade entre o cachorro e a experiência planejada, em vez de tentar encaixar todos os cães numa mesma ideia de viagem.


Nem tudo que é pet friendly é necessariamente bom para todos os cachorros

Esse é um ponto que considero fundamental quando falamos de turismo pet friendly.

Um lugar permitir a entrada do cachorro não significa automaticamente que a experiência será boa para ele.


Pode ser um hotel maravilhoso, um parque lindo ou um restaurante excelente e, ainda assim, não combinar com aquele cachorro.


Talvez o ambiente seja muito barulhento. Talvez haja circulação intensa de pessoas e animais. Talvez faltem lugares onde ele consiga descansar ou se afastar um pouco dos estímulos. Pode existir uma programação inteira em que cães são permitidos, mas na qual aquele cão específico não se sente confortável.


E isso também não significa necessariamente que o estabelecimento seja ruim.

Às vezes ele é ótimo para um cachorro e péssimo para outro.


Um cão extremamente sociável, acostumado a movimento e pessoas, pode se divertir muito num hotel cheio de famílias, crianças e outros cães. Um cachorro mais reservado talvez fique muito mais feliz numa pousada pequena, silenciosa, com espaço e pouca circulação.


Os dois podem viajar.

Só não precisam fazer a mesma viagem.


O CRMV-SP já chama atenção justamente para essa avaliação: além das condições sanitárias e físicas, é importante considerar se o comportamento do animal é compatível com a viagem que se pretende fazer, porque determinadas experiências podem ser negativas para cães muito medrosos ou que têm dificuldades com ambientes diferentes.


Para mim, essa é uma das ideias mais importantes do turismo pet friendly: o bem-estar do cachorro precisa estar acima da nossa vontade de levá-lo para todos os lugares.


Viajar bem começa muito antes de chegar ao destino

Antes de pensar no hotel, na praia ou na trilha, existe uma parte fundamental de viajar com cachorro que começa muito antes de chegar ao destino: o deslocamento.

Como seu cachorro lida com o meio de transporte que vocês vão utilizar?


No carro, por exemplo, alguns cães entram naturalmente, deitam e dormem. Outros ficam inquietos, ofegam, vocalizam, salivam, vomitam ou demonstram medo antes mesmo de o veículo começar a andar.


E nem tudo é comportamento. Enjoo, náusea, dor e outros desconfortos físicos também podem aparecer durante uma viagem, então episódios frequentes de vômito, salivação intensa ou mal-estar merecem avaliação do médico-veterinário.


Se o problema for medo ou falta de adaptação, aí sim podemos trabalhar gradualmente.

Não espere a viagem de seis horas para apresentar o carro ao cachorro.

Comece com ele parado, depois trajetos bem curtinhos, um passeio pela vizinhança, uma ida até algum lugar agradável e vá aumentando conforme ele estiver confortável. A Cornell recomenda exatamente essa adaptação progressiva antes de viagens maiores e orienta reduzir o ritmo quando o animal demonstra ansiedade, em vez de simplesmente forçá-lo a continuar.


Temos um conteúdo inteiro dedicado a essa parte: Como viajar de carro com cachorro


O cachorro consegue lidar com lugares novos?

Viajar significa colocar o cachorro em contato com um monte de coisas que não fazem parte da rotina dele, e várias parecem absolutamente banais para nós.


Um hotel, por exemplo, pode ter corredores com gente entrando e saindo o tempo inteiro, portas batendo, elevador, carrinhos de mala e de limpeza, crianças, outros cães, cheiros diferentes, barulhos no quarto ao lado, pisos que ele nunca viu e funcionários aparecendo de repente. Fora tudo aquilo que existe no destino em si: restaurantes, ruas movimentadas, atrativos, trilhas, praias, parques ou seja lá o que vocês tenham planejado fazer.

E o cachorro não recebeu o roteiro da viagem antes de sair de casa, né? 😅


Por isso, mais do que esperar que ele simplesmente “se comporte”, observe como reage às novidades.

Alguns cães chegam a um lugar diferente, farejam tudo durante alguns minutos, bebem água e logo estão deitados como se conhecessem aquele quarto há anos. Outros precisam de mais tempo para entender o ambiente e se sentir seguros.

E tá tudo bem, isso por si só, não significa que exista um problema.


O que vale observar é se, depois daquele primeiro momento de curiosidade ou estranhamento, o cachorro consegue se adaptar e relaxar. Ele bebe água? Come normalmente? Consegue deitar e dormir? Explora o ambiente sem permanecer em estado de alerta o tempo inteiro?


Se passa horas andando de um lado para o outro, se assusta com qualquer ruído, tenta fugir, treme, vocaliza ou simplesmente não consegue descansar, talvez aquele ambiente esteja exigindo mais dele do que imaginávamos.


E essa informação ajuda a planejar melhor a viagem seguinte.


Talvez ele adore uma pousada pequena no campo, mas não fique confortável num resort movimentado. Talvez ame uma casa alugada com a família e não goste de hotéis com muita circulação. Pode não se importar com a hospedagem e, ao mesmo tempo, detestar restaurantes cheios.


Não existe um destino, uma hospedagem ou um passeio perfeito para todos os cães. Existe aquilo que funciona melhor para o seu.


Saber descansar também faz parte de viajar

Esse ponto é pouco lembrado.

Quando pensamos em preparar um cachorro para viajar, logo aparecem “vem”, “fica”, “solta”, caminhar bem na guia...Tudo isso é bom e pode ser útil.


Mas também existe uma habilidade importantíssima que não costuma ganhar o mesmo destaque: conseguir descansar.


Uma viagem coloca o cachorro em contato com cheiros, pessoas, lugares e situações diferentes. Mesmo quando são experiências boas, tudo isso significa estímulo e também pode cansar mentalmente.


Viagem com o cachorro não precisa virar aquela programação infantil de férias em que começa uma atividade às 7h e termina outra às 23h. 😂


Programe pausas.

Deixe o cachorro dormir.


Se puder, leve coisas conhecidas de casa, como a caminha, manta ou brinquedo favorito. Tentar manter alguma previsibilidade nos horários de alimentação, descanso e passeios também pode ajudar.


Eu gosto de levar algumas coisas conhecidas de casa, principalmente quando o cachorro vai dormir num lugar diferente. Caminha, manta, brinquedo favorito e um pouco da rotina que ele já conhece podem ajudar bastante nessa adaptação. No meio de tanta novidade, ter algumas referências familiares faz diferença.


Às vezes a melhor atividade do dia é simplesmente não fazer nada.

O Bob e a Bella provavelmente discordam desse parágrafo, mas seguimos. 😂


Socialização importa, mas socializar não significa amar todo mundo

Esse talvez seja um dos conceitos mais importantes para quem quer viajar com cachorro e, ao mesmo tempo, um dos que mais geram confusão.


Um cachorro bem socializado não precisa querer brincar com todos os outros cães.

Também não precisa aceitar carinho de toda pessoa que aparece.


Cães têm personalidade, preferências, limites e necessidades diferentes. Alguns são extremamente sociáveis, enquanto outros preferem manter distância e observar.


Socialização tem muito mais relação com a capacidade de lidar de maneira segura com diferentes pessoas, animais, ambientes, sons, superfícies e situações do que com transformar o cachorro no prefeito da pracinha.


Quando falamos em socialização, o ideal é apresentar o cachorro a diferentes lugares, pessoas e estímulos de forma gradual, positiva e respeitando o tempo dele, sempre com métodos baseados em reforço positivo.

Então nada de jogar o cachorro no meio de vinte cães porque “ele precisa socializar”.


Além de não ser uma boa estratégia, uma experiência intensa demais pode justamente aumentar o medo e o desconforto. O ideal é apresentar lugares, pessoas e estímulos diferentes aos poucos, de forma positiva e respeitando o tempo de cada cão.


Para viajar, o que nos ajuda é um cachorro que consiga lidar com novidades sem viver cada novidade como uma ameaça.



E se ele não teve essas experiências quando era filhote?

A fase inicial da vida é muito importante para a socialização, mas isso não significa que um cachorro adulto que teve poucas experiências esteja condenado a nunca viajar.

Cães continuam aprendendo.


Só que não existe necessidade de começar pelo nível mais difícil.

Se ele nunca dormiu fora de casa, talvez uma viagem de dez dias para um destino super movimentado não seja a melhor estreia.

Se ainda está se adaptando ao carro, não precisamos começar com sete horas de estrada.

Se nunca ficou perto de grupos grandes de cães, não é necessário estrear justamente numa excursão lotada.


Experiências menores permitem descobrir como aquele cachorro reage e, principalmente, dar tempo para que ele construa boas associações.

É quase como apresentar o mundo para uma pessoa. Ninguém precisa começar a viajar com conexão de madrugada, aeroporto lotado, mala extraviada e quarto que ainda não ficou pronto. 😂


Alguns aprendizados realmente ajudam durante a viagem

Não é preciso transformar seu cachorro num aluno de escola militar para viajar, mas algumas formas básicas de comunicação podem facilitar bastante a vida.


Responder ao chamado do tutor, conseguir esperar alguns segundos antes de atravessar uma porta, interromper o interesse por algo inadequado, soltar alguma coisa e caminhar com a guia de maneira manejável são habilidades úteis em hotéis, passeios, trilhas, paradas de estrada e praticamente qualquer experiência turística.


Os nomes dos comandos não importam.

Pode ser “vem”, “aqui”, “volta”, “espera”, “deixa”, “solta” ou a palavra que vocês usam em casa. Seu cachorro não vai fazer prova de português. 😅


O importante é que a comunicação funcione também fora da sala de casa, porque um comportamento que ele consegue realizar tranquilamente sem distração pode ser muito mais difícil diante de cheiros, pessoas, outros cães e um lugar totalmente novo.


Se você quiser ensinar ou aprimorar esses comportamentos, nossa recomendação é sempre trabalhar com reforço positivo e métodos que respeitem o bem-estar do cachorro, sem punições físicas ou psicológicas.


A Cãomigo não é uma empresa de adestramento, então não vamos transformar este artigo num curso sobre como ensinar cada uma dessas habilidades. 😅

Mas elas podem deixar viagens e passeios muito mais tranquilos e seguros.


Educação e boas maneiras também fazem parte do turismo pet friendly

Nós queremos mais hotéis, pousadas, restaurantes, parques, atrativos e espaços onde nossos cachorros sejam bem-vindos. Mas será que fazemos a nossa parte?


Cachorros latem, fazem xixi, soltam pelos, podem se empolgar, tentar chegar perto de pessoas e, eventualmente, fazer coisas que nós preferiríamos que não fizessem. Eles são cachorros, afinal.


A responsabilidade de organizar essa convivência é nossa.

Recolher as fezes, respeitar as áreas permitidas, evitar que o cachorro pule em quem não deseja interação, não permitir que danifique móveis ou objetos, controlar situações que possam colocar outras pessoas ou animais em risco e seguir as regras daquele local fazem parte de viajar com responsabilidade.


Também precisamos lembrar que nem todas as pessoas gostam de cães. Algumas têm medo, alergias ou simplesmente não querem interação naquele momento, e tudo bem.


Turismo pet friendly não significa que o mundo inteiro precisa girar em volta dos nossos dogs.

Significa criar condições para que famílias com cães também possam ocupar os espaços turísticos, respeitando quem divide esses lugares com elas.


Nosso comportamento também influencia a oferta de lugares pet friendly

Quando receber famílias com cães gera repetidamente danos, conflitos, sujeira ou reclamações, o estabelecimento tende a criar mais restrições ou até desistir de receber animais.

E ninguém quer isso.

Queremos justamente o contrário: mais lugares preparados, mais experiências, mais liberdade e mais qualidade no atendimento às famílias multiespécie.


Então existe também um componente coletivo na forma como ocupamos esses espaços.

Cada tutor não representa todos os tutores do planeta, claro. Mas boas experiências ajudam a mostrar para hotéis, atrativos e destinos que turismo pet friendly pode funcionar muito bem quando existe planejamento, estrutura, regras claras e responsabilidade dos dois lados.

Isso também faz parte do desenvolvimento desse mercado.


Passeios e viagens em grupo exigem um perfil diferente

Nos passeios em grupo o cachorro precisa conseguir permanecer próximo de outras pessoas e cães com segurança e algum conforto.

Isso não significa brincar com todos, dividir brinquedos ou amar cada AUmigo da excursão.

Cães reservados também são bem-vindos.


Mas uma viagem ou passeio em grupo não é o melhor lugar para iniciar a socialização de um cão que sente medo muito intenso, apresenta reatividade importante ou não consegue permanecer próximo dos demais com segurança.

Nesses casos, um passeio privativo pode funcionar completamente diferente.


E esse é um ponto que considero muito importante: às vezes o problema não é “meu cachorro não pode viajar”.

Às vezes aquele formato de viagem não funciona para ele.


E cães reativos? Podem viajar?

“Reativo” acabou virando uma palavra muito ampla.

Existem cães que reagem a outros cães, pessoas desconhecidas, crianças, bicicletas, aproximações rápidas, sons ou contextos bastante específicos.

Então não existe uma resposta universal.


Um cachorro que provavelmente ficaria muito desconfortável num passeio coletivo pode viver uma viagem maravilhosa com sua família numa hospedagem adequada, com espaços amplos, horários tranquilos e atividades planejadas para manter a distância de determinados estímulos.


Em outros casos, medo, ansiedade ou agressividade podem ser tão intensos que a viagem, naquele momento, simplesmente não oferece uma boa experiência.


E aí entra uma coisa importante: não precisamos expor repetidamente o cachorro a uma situação difícil apenas porque queremos muito que ele consiga viajar conosco.


Quando medo, ansiedade, reatividade ou outro comportamento comprometem o bem-estar do cachorro ou a segurança, recomendamos procurar um profissional qualificado em comportamento canino que trabalhe com métodos baseados em reforço positivo e evidências atuais.


Quando o cachorro apresenta ansiedade importante, medo intenso ou muita dificuldade durante o processo de adaptação, vale procurar ajuda de um veterinário comportamentalista ou de outro profissional qualificado em comportamento canino, sempre com abordagem baseada em reforço positivo.


A ideia não é “consertar o cachorro para que ele possa viajar”.

É entender o que ele está sentindo, ajudá-lo quando for possível e também descobrir quais experiências realmente fazem sentido para ele.


Observe como seu cachorro mostra que alguma coisa não está legal

Seria maravilhoso se eles chegassem e dissessem:

“Mãe, essa hospedagem não funcionou muito bem para mim. Podemos conversar sobre o roteiro de amanhã?”

Facilitaria bastante. 😂


Como isso ainda não acontece, precisamos aprender a observar.

Alguns sinais são bastante claros, como tremores, tentativas de fuga, vocalização intensa, comportamento agressivo ou recusa em se movimentar.

Outros dependem muito mais de contexto.


Ofegar sem relação aparente com calor ou exercício, andar repetidamente de um lado para outro, permanecer extremamente atento a qualquer movimento, não conseguir descansar, evitar aproximação, apresentar mudanças importantes no apetite ou agir de forma muito diferente do habitual podem indicar que alguma coisa não está bem.

Conhecer o próprio cachorro ajuda muito nessa leitura.


E, claro, comportamento diferente também pode ter origem física. Dor, náusea, doença e outros problemas de saúde podem provocar mudanças comportamentais. Quando houver dúvida ou alterações importantes, a avaliação é veterinária.


Uma das melhores formas de preparar uma viagem é fazer experiências menores antes

Não espere as férias de dez dias para descobrir tudo sobre seu cachorro fora de casa.

Faça um bate-volta. Passe algumas horas num local diferente.

Experimente um café ou atrativo realmente adequado a cães.

Faça um passeio curto de carro para um lugar legal.

Se houver oportunidade, passe uma noite fora antes de reservar uma semana inteira.

E observe como ele fica durante o deslocamento, como chega ao novo ambiente, quanto tempo leva para relaxar, se consegue comer e dormir normalmente e como está no dia seguinte.


Tudo isso vai dando informações sobre que tipo de viajante é o seu cachorro.


E essa informação vale muito mais do que pesquisar:

“Golden gosta de viajar?”

“Shih-tzu gosta de hotel?”

“Border Collie gosta de praia?”

Você não está viajando com uma raça.

Está viajando com aquele indivíduo.


A hospedagem precisa combinar com o seu cachorro, e não apenas aceitar animais

Uma das perguntas mais comuns na organização de uma viagem é: “esse hotel aceita cachorro?”

Importante, claro.

Mas ainda é pouco.


Um hotel pode ser verdadeiramente pet friendly e, mesmo assim, não ser a melhor escolha para determinado cão.

Um cachorro sensível a sons talvez fique desconfortável num quarto ao lado do elevador. Outro pode ter dificuldade com corredores estreitos e muita circulação. Um cão que não gosta de estranhos entrando no ambiente pode precisar de um manejo diferente com a equipe de limpeza.


A saúde também precisa entrar nessa decisão

Essa é uma parte que eu aprendi muito na prática.

Já viajei de São Paulo até a Bahia com meus cães, inclusive com uma anjinha epiléptica, e já passei alguns sufocos em cidades muito pequenas, estradas longas e lugares onde não havia uma clínica veterinária logo ali na esquina.


Quando você está viajando com um cachorro que tem alguma condição de saúde, ou mesmo quando vai para regiões mais remotas, percebe rapidinho que não basta pensar só no destino bonito, na hospedagem e no passeio.

Antes de uma viagem maior, principalmente quando existe alguma condição de saúde, vale conversar com o veterinário que acompanha seu cachorro e explicar exatamente o roteiro: para onde vocês vão, quantos dias ficarão fora, como será o deslocamento e quais atividades pretendem fazer.


Também é uma boa oportunidade para conferir vacinação, antiparasitários e outros cuidados preventivos que podem mudar conforme o destino e os riscos locais. Em áreas com ocorrência de leishmaniose, por exemplo, a prevenção contra o contato com o inseto vetor merece atenção específica e deve ser orientada pelo médico-veterinário.


Se o cachorro usa medicação contínua é essencial ter tudo organizado antes de sair de casa: quantidade suficiente para o período da viagem, receitas ou orientações quando necessárias e os medicamentos que o veterinário considere importantes para aquele caso. Nada de montar uma “farmacinha pet” por conta própria porque alguém indicou na internet.


E, principalmente em viagens longas ou para lugares mais afastados, procure saber antecipadamente onde existem clínicas ou hospitais veterinários no caminho e próximos ao destino. Tomara que você nunca precise usar essa informação, claro. Mas procurar atendimento numa emergência, no meio de uma cidade desconhecida e já desesperada, é muito pior do que gastar alguns minutos com isso durante o planejamento.


No fim, saúde também faz parte do turismo pet friendly responsável. Não é viajar esperando que alguma coisa dê errado, mas conhecer o seu cachorro e preparar o roteiro para conseguir cuidar dele caso seja necessário.


Às vezes não levar é a escolha mais amorosa

Eu trabalho com turismo pet friendly.

A Cãomigo nasceu justamente porque eu queria viajar com meus filhos e não deixar eles em casa.

Então pode parecer estranho ouvir isso de mim, mas eu considero importante dizer: nem toda viagem precisa ter cachorro.


Se o deslocamento causa sofrimento intenso, se a programação praticamente não permite a participação dele, se passaria a maior parte do tempo sozinho numa hospedagem ou se aquele destino simplesmente não combina com suas necessidades, talvez ficar em casa com uma pessoa de confiança seja melhor.


Isso não é fracassar no turismo pet friendly.

É colocar o cachorro no centro da decisão.

Levar o cachorro para todos os lugares não é prova de amor.

Fazer escolhas pensando nele é.


Checklist: esta viagem faz sentido para o meu cachorro?

Antes de reservar as férias, vale se perguntar:

  • Ele consegue fazer o deslocamento planejado sem medo ou mal-estar intenso?

  • Já teve experiências positivas em ambientes diferentes de casa?

  • Quando chega a um lugar novo, consegue explorar e depois relaxar?

  • O roteiro permite respeitar os momentos de descanso dele?

  • A hospedagem combina com sua personalidade e suas necessidades?

  • Ele consegue lidar com as pessoas e animais que provavelmente encontrará?

  • Se a viagem for em grupo, ele consegue permanecer próximo dos demais com segurança?

  • Se precisar ficar sozinho em algum momento, ele consegue fazer isso naquele contexto?

  • A saúde e a condição física dele são compatíveis com as atividades?

  • Eu consigo mudar meus planos caso perceba que ele não está bem?

  • E, principalmente: essa viagem parece boa para ele ou é muito importante para mim que ele vá?


Você não precisa responder “sim” para absolutamente tudo.

Algumas coisas podem ser adaptadas.

Talvez seja preciso mudar a hospedagem, escolher outro horário, reduzir atividades, começar por uma viagem menor ou preparar melhor o cachorro antes.

O importante é descobrir esses pontos antes, quando ainda temos escolha.


Então meu cachorro precisa ser adestrado para viajar?

Voltamos à pergunta que começou este artigo.

Não precisa de currículo de adestramento.

Mas educação, comunicação, adaptação e boas experiências ajudam muito.


O preparo pode significar aprender alguns comportamentos básicos, acostumar-se gradualmente ao carro, conhecer ambientes diferentes, conseguir descansar fora de casa ou simplesmente ter um roteiro construído respeitando aquilo que aquele cachorro consegue viver bem.

E isso muda bastante a forma de pensar a viagem.

Para mim, uma boa experiência não é aquela em que conseguimos dizer no final: “ele se comportou.”

É aquela em que conseguimos olhar para ele e pensar: “ele também curtiu.”


No fim, talvez a pergunta seja outra

Eu comecei a viajar com a Cindy e o Bob porque não queria deixá-los para trás.

Foi esse desejo que, alguns anos depois, ajudou a dar origem à Cãomigo.

Então pode acreditar: eu entendo perfeitamente a vontade de olhar para o cachorro e pensar:

“Se eu vou, ele vai Cãomigo.”


Mas tantos anos vivendo e trabalhando com turismo pet friendly também me ensinaram a observar o que eles querem viver com a gente.

Tem cachorro que ama natureza e não gosta de multidão. Tem aquele que entra num hotel e imediatamente incorpora o hóspede profissional. Outro prefere uma casa tranquila e rotina conhecida.

Tem cachorro que vai achar a viagem maravilhosa.

E pode ter aquele que provavelmente gostaria de processar os pais por terem inventado férias. 😂


Eles são diferentes.

Por isso, antes de cada viagem, em vez de pensar apenas: “posso levar meu cachorro?”

eu gosto de acrescentar outra pergunta: “essa viagem faz sentido para o meu cachorro?”


Se faz, bora planejar direitinho e arrumar as malas.

A Cãomigo não existe para ensinar cachorros a caberem nas viagens que os humanos escolheram.

Queremos ajudar famílias a viver viagens, passeios e momentos de lazer que também façam sentido para eles.


Porque o objetivo nunca deveria ser simplesmente levar o cachorro.

É viver coisas boas juntos. 💚🐶

Este conteúdo foi publicado originalmente em fevereiro de 2021 e revisado integralmente em setembro de 2026, com atualização das informações.

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