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Seu negócio é realmente pet friendly ou você só quer atrair o público pet?

28 de out.
16 min de leitura

O mercado pet chama a atenção, movimenta negócios e desperta o interesse de empresas dos mais diferentes segmentos. E é natural que hotéis, restaurantes, atrativos turísticos, lojas e organizadores de eventos queiram conquistar esse público!


Mas, em meio a tantas oportunidades, tenho observado uma situação que merece uma reflexão. Parece que basta permitir a entrada de cachorros para que um estabelecimento, serviço ou evento passe a se apresentar como pet friendly.


E o apelo aparece até em atividades e negócios que, à primeira vista, não possuem qualquer relação com o universo dos animais.

Um festival de música? Pet friendly!

Uma feira gastronômica? Pet friendly!

Uma festa infantil? Pet friendly!

Um bar com música alta e noites de drinks? Também pet friendly!


Mas será que todos esses ambientes estão realmente preparados para receber cães? E, antes disso, será que faz sentido incentivar a presença deles em todas essas situações?


Ou será que, na tentativa de conquistar uma fatia do mercado pet, algumas empresas estão confundindo inclusão com oportunidade comercial?


Não vejo problema algum em querer atender esse público. Pelo contrário! Ampliar os espaços em que podemos compartilhar experiências com nossos animais é algo que defendo e incentivo há mais de 10 anos.


A questão é que receber animais exige mais do que acrescentar a expressão pet friendly ao material de divulgação.

E talvez exista uma reflexão ainda anterior: nem toda oportunidade de atrair o público pet precisa, necessariamente, ser transformada em um convite para levar os animais.


Aceitar animais não é a mesma coisa que ser pet friendly

Antes de qualquer coisa, precisamos compreender uma diferença importante:


  • Um estabelecimento que simplesmente aceita pets, permite a entrada de animais, normalmente mediante determinadas regras. Isso não significa, necessariamente, que sua estrutura ou seus serviços tenham sido planejados considerando as necessidades deles.

  • Um estabelecimento pet friendly, por sua vez, deveria ir além dessa permissão, oferecendo condições adequadas para que animais e pessoas possam compartilhar aquele ambiente de maneira segura e confortável.

  • Já as experiências centradas nos pets são aquelas em que os animais ocupam um papel central no planejamento, influenciando diretamente a escolha dos ambientes, das atividades e dos serviços oferecidos.


Essa distinção é uma forma de pensar o acolhimento aos animais, e não uma classificação oficial, ok?

E claro, também não significa que todos os negócios precisem se tornar especializados no público pet.


Um hotel tradicional pode receber muito bem hóspedes acompanhados de cães. Um restaurante pode proporcionar uma experiência agradável para famílias multiespécies. Um atrativo turístico pode adaptar parte de sua visitação para receber animais com segurança. Uma loja pode permitir a presença de cachorros enquanto seus tutores fazem compras.


Mas existem diferenças importantes entre simplesmente autorizar essa presença e assumir o compromisso de oferecer uma experiência adequada.


Uma hospedagem pet friendly, por exemplo, pode disponibilizar grandes áreas de circulação, ambientes de convivência, oportunidades de exploração e atividades pensadas para os animais.

Já um hotel que recebe hóspedes acompanhados ou não de pets provavelmente precisará organizar seus espaços e estabelecer regras de convivência de outra maneira.

Ambos podem oferecer excelentes experiências pet friendly, desde que sejam coerentes com suas propostas e estejam preparados para atender os públicos que recebem.


Ser pet friendly não significa transformar todo negócio em um negócio pet. Significa considerar adequadamente as necessidades dos animais quando sua presença faz parte da experiência oferecida.

E essa diferença vai muito além de uma escolha de palavras.


Quando um estabelecimento se apresenta como pet friendly, ele cria uma expectativa. O cliente entende que poderá compartilhar aquela experiência com seu animal e espera encontrar condições compatíveis com isso.

Não basta, portanto, permitir a entrada. É preciso considerar o que acontece depois que o cachorro atravessa a porta.


Será que tudo precisa ser pet friendly?

Essa talvez seja a pergunta mais provocativa deste texto.

Com o crescimento do mercado pet, parece que precisamos incluir algum apelo aos animais em praticamente tudo.

Festivais, festas temáticas, bares, eventos gastronômicos, lojas dos mais variados segmentos e atividades originalmente pensadas para outros públicos passaram a explorar a possibilidade de receber cães.


Em muitos casos, isso representa um avanço importante. Em outros, fico pensando se houve realmente uma avaliação sobre a pertinência dessa inclusão ou se a ideia surgiu simplesmente porque o público pet se tornou comercialmente interessante.


E vale destacar: permitir a entrada de animais não é, por si só, um problema. O que merece atenção é transformar essa permissão em um atrativo comercial sem avaliar se a experiência oferecida faz sentido para eles.


Pense em um show de rock com música amplificada e caixas de som potentes. Sim, já vi anúncio de festivais deste tipo com apelo "pet friendly". Ou em uma festa infantil com muita movimentação, brincadeiras, gritos e atividades inteiramente voltadas às crianças. Ou ainda em um bar no qual o principal atrativo seja a música alta e a programação noturna.

Esses estabelecimentos e eventos podem oferecer experiências excelentes para seus respectivos públicos.

Mas será que anunciar a presença de cães como um atrativo adicional torna essas experiências melhores?


A resposta não é necessariamente simples. Existem animais com características, sensibilidades e níveis de tolerância bastante diferentes. Um ambiente que determinado cachorro consegue frequentar com tranquilidade pode ser desconfortável para outro.

Cabe aos tutores conhecer seus animais e avaliar as condições de cada experiência antes de decidir levá-los.


Entretanto, quando uma empresa utiliza a presença de cães como argumento de divulgação e apelo comercial, ela também assume uma responsabilidade sobre a adequação daquilo que está oferecendo.

E é justamente essa responsabilidade que precisamos discutir.


Não se trata de afirmar que todo ambiente movimentado seja inadequado, nem de defender que cães não possam acompanhar seus tutores em atividades destinadas principalmente aos humanos.


Trata-se de perguntar se essa inclusão foi realmente planejada, se existem condições apropriadas para receber os animais e se o apelo comercial está alinhado à experiência oferecida.


Afinal, nem tudo precisa ter uma versão pet friendly para ser um bom produto, serviço ou evento.

Reconhecer isso não representa uma perda de oportunidade. Pode ser, inclusive, uma demonstração de coerência com a proposta do negócio e de respeito aos diferentes públicos.


O bem-estar animal precisa fazer parte dessa discussão

Quando falamos em experiências pet friendly, é comum que a preocupação com os animais se concentre em aspectos mais visíveis, como a disponibilidade de água, a possibilidade de circulação e a existência de espaços para descanso.

São cuidados importantes é claro, mas o bem-estar animal envolve muito mais.


O Modelo dos Cinco Domínios é uma referência que nos ajuda a compreender essa questão.

O modelo considera cinco dimensões inter-relacionadas: nutrição, ambiente físico, saúde, interações comportamentais e estado mental.


Os quatro primeiros domínios ajudam a compreender fatores que influenciam as experiências dos animais, enquanto o quinto considera seus possíveis estados mentais, incluindo experiências negativas e positivas.


Isso significa que, ao avaliar as condições oferecidas a um cachorro, não devemos considerar apenas se ele está alimentado, hidratado e fisicamente seguro.

Também precisamos pensar nas oportunidades que possui para explorar o ambiente, nas interações a que está exposto, nas possibilidades de descanso e nas experiências emocionais que aquela situação pode proporcionar.


E aqui existe uma questão fundamental: um cachorro pode estar fisicamente seguro e, ainda assim, estar vivendo uma experiência desagradável.


Um animal pode permanecer durante horas em determinado ambiente sem sofrer qualquer acidente, mas apresentar medo, ansiedade, desconforto ou dificuldade para descansar.

Da mesma forma, um ambiente que oferece oportunidades de exploração, interações adequadas e liberdade de escolha, dentro de condições seguras, pode contribuir para experiências mais positivas.


Por isso, considero insuficiente avaliar a qualidade de um estabelecimento pet friendly apenas pela estrutura que ele disponibiliza. Precisamos compreender também como os animais podem vivenciar aquele espaço.


O que os estudos sobre ruídos e calor nos ensinam?

Essa preocupação não é apenas teórica.

Uma pesquisa publicada na revista científica Frontiers in Veterinary Science, investigou comportamentos relacionados ao estresse em cães expostos a ruídos domésticos comuns, além da maneira como seus tutores interpretavam essas reações.

Os resultados chamam a atenção para a sensibilidade dos cães a determinados sons e para a possibilidade de seus sinais de medo ou ansiedade serem subestimados pelas pessoas.


Embora o estudo não tenha investigado diretamente festivais ou eventos turísticos, ele oferece elementos importantes para refletirmos sobre experiências que envolvem estímulos sonoros intensos.


Se um evento terá música alta, existem espaços afastados das principais fontes sonoras?

Se será realizado ao ar livre, haverá condições adequadas de sombra, hidratação, descanso e circulação?

Se a programação prevê grande concentração de pessoas, haverá espaço suficiente para que os animais possam se movimentar com segurança e, quando necessário, se afastar dos estímulos?

Essas perguntas não tornam uma experiência automaticamente adequada. Mas ajudam a perceber a diferença entre simplesmente permitir a entrada de cães e avaliar as consequências dessa decisão.


O compromisso com o bem-estar animal exige reconhecer que nem toda experiência desejável para os humanos será necessariamente positiva para os cães.

E reconhecer isso deveria fazer parte das decisões de qualquer empresa que pretenda atuar nesse mercado.


Uma observação importante: essa reflexão se refere ao convite recreativo à presença de animais de companhia. O acesso de pessoas acompanhadas de cães-guia envolve direitos específicos de acessibilidade e inclusão, que devem ser respeitados, ok?


O que uma empresa precisa considerar antes de se declarar pet friendly?

Aqui está um ponto que considero essencial: ser pet friendly não começa quando o primeiro cachorro chega.

Começa muito antes, no planejamento.


A forma como uma empresa recebe animais envolve decisões sobre infraestrutura, atendimento, comunicação, segurança, regras de convivência e experiência do cliente.

E essas decisões precisam ser compatíveis com a realidade de cada negócio.

Não existe uma fórmula única para um hotel, um restaurante, uma loja, um atrativo turístico ou uma empresa que organiza passeios.

Cada atividade apresenta características e responsabilidades próprias, mas existem algumas questões que todo empreendimento deveria considerar.


A equipe compreende o público que está recebendo?

Imagine a recepção de um hotel que começa a aceitar hóspedes acompanhados de cães.

Os funcionários conhecem as regras? Sabem informar onde os animais podem circular? Estão preparados para orientar os tutores diante de uma situação inesperada?

E, principalmente, compreendem que nem todo cachorro gosta de receber carinho, ser abordado por desconhecidos ou interagir com outros animais?


Essas situações podem parecer pequenos detalhes, mas fazem diferença na experiência de quem chega acompanhado de um cão.

Receber animais exige preparo, e esse preparo não deveria depender exclusivamente da boa vontade ou da experiência pessoal de um funcionário que gosta de cachorros.

Gostar de animais é maravilhoso, mas não substitui conhecimento, orientação e procedimentos adequados.


E quando alguma coisa não acontece como o esperado?

Um cachorro pode se assustar com um barulho, escapar durante a abertura de um portão ou apresentar desconforto diante de outro animal.

Em ambientes compartilhados, também podem surgir reclamações, conflitos ou situações que exigem intervenção da equipe.


Não é necessário transformar todos os funcionários em especialistas em comportamento animal, mas é importante que a empresa compreenda suas responsabilidades, estabeleça procedimentos e saiba agir dentro de suas competências.

O tutor continua responsável pelo seu animal, mas isso não elimina a responsabilidade do estabelecimento sobre a organização e a segurança dos serviços que oferece.

Afinal, ao convidar determinado público para frequentar um ambiente, a empresa precisa considerar as situações razoavelmente previsíveis relacionadas a essa escolha.


A estrutura é coerente com a experiência anunciada?

Uma área externa bonita não significa, necessariamente, que seja adequada para os cães.

Da mesma forma, um estabelecimento sem grandes jardins ou espaços exclusivos para animais não é automaticamente menos pet friendly.

A qualidade da experiência depende de diversos fatores, incluindo características do ambiente, condições de circulação, conforto, segurança e possibilidades de atender às necessidades dos animais.

Um restaurante pode oferecer uma boa experiência para famílias acompanhadas de cães mesmo que eles permaneçam tranquilamente ao lado da mesa.

Um hotel pode receber muito bem hóspedes com animais sem possuir piscinas caninas, recreação especializada ou grandes áreas de soltura.

A questão é compreender o que está sendo oferecido, quais são os limites da estrutura e se as condições são compatíveis com a proposta apresentada ao cliente.


Ser pet friendly não é uma competição para descobrir quem oferece mais serviços aos cães. É um compromisso com a qualidade e a coerência daquilo que se oferece.


Preparar profissionais também faz parte desse compromisso

Ao longo de quase dez anos trabalhando com turismo pet friendly, uma das questões que mais me chamam a atenção é como a presença de cães modifica o planejamento e a condução de experiências turísticas.

Não basta escolher um lugar bonito, encontrar um roteiro interessante e informar que os participantes podem levar seus cachorros.

Precisamos compreender as características dos percursos, as condições ambientais, a interação entre os animais, as necessidades das famílias e as situações que podem surgir durante a atividade.

E isso vale mesmo quando trabalhamos com profissionais experientes.


Um guia de turismo pode conhecer profundamente seu destino, dominar técnicas de condução de grupos e possuir ampla experiência profissional. Ainda assim, trabalhar com famílias acompanhadas de cães acrescenta particularidades que precisam ser compreendidas.

Foi a partir dessa percepção que desenvolvemos, na Cãomigo, uma formação específica em turismo pet friendly e o nosso Programa de Multiplicadores, que reúne profissionais de diferentes regiões.


A proposta não é ensinar turismo a quem já possui formação e experiência na área. É compartilhar conhecimentos específicos sobre as particularidades do turismo com cães, somando diferentes experiências profissionais.

Isso inclui compreender como a presença dos animais interfere na organização dos roteiros, na gestão de riscos, na comunicação com os tutores e na própria condução das atividades.


O mesmo princípio se aplica às empresas que desejam receber animais: conhecimento sobre o setor de atuação e preparação para atender o público pet são competências complementares.

E é justamente essa combinação que pode contribuir para experiências melhores.

Se quiser conhecer mais sobre os profissionais que fazem parte dessa rede e como funciona o nosso trabalho, leia também: Quem faz a Cãomigo acontecer? Conheça nossa equipe.


E quando o estabelecimento recebe clientes com e sem animais?

Esse é outro desafio importante.

Imagine um hotel de lazer que recebe famílias com crianças pequenas, casais, idosos e hóspedes acompanhados de cães.

Ou um restaurante no qual algumas pessoas chegam com seus animais, enquanto outras preferem manter distância deles.

Como conciliar expectativas tão diferentes?


A resposta não está necessariamente em permitir que os cães circulem livremente por todos os espaços.

Pelo contrário! Em ambientes compartilhados, regras claras e coerentes podem ser fundamentais para garantir uma boa convivência.


Uma hospedagem especializada em receber famílias com animais pode oferecer ambientes planejados para que os cães tenham mais liberdade de circulação e participação nas atividades.

Já um hotel que atende públicos diversos provavelmente precisará equilibrar necessidades diferentes, definindo condições para utilização dos espaços comuns e estabelecendo regras de convivência.

E não há nada de errado nisso!


Um estabelecimento não deixa de ser pet friendly porque possui regras. O importante é que elas sejam claras, razoáveis, coerentes com a proposta do negócio e compatíveis com o bem-estar dos animais e das pessoas.

Aliás, conhecer as expectativas dos clientes que não estão acompanhados de pets também faz parte de uma boa experiência.


Da mesma forma, atividades que reúnem cães e crianças exigem atenção especial.

Não podemos pressupor que todos os cachorros gostem de interagir com crianças, assim como não podemos imaginar que todas as crianças saibam reconhecer os limites de um animal.

Orientação, supervisão e respeito às diferentes necessidades são fundamentais.

Acolher um público não significa necessariamente desconsiderar o outro.

E, quanto mais diversos forem os públicos atendidos por um estabelecimento, mais importante será pensar na convivência entre eles.


A jornada do cliente pet friendly começa antes da chegada

Quem trabalha com turismo e hospitalidade sabe que a experiência do cliente não começa apenas quando ele chega ao estabelecimento.


No turismo pet friendly, essa percepção é ainda mais importante.

Imagine uma família procurando um hotel para passar alguns dias com seu cachorro.

Ela encontra uma hospedagem anunciada como pet friendly, gosta das fotografias, escolhe a acomodação e realiza a reserva.

Mas, ao chegar, descobre que o animal não pode acompanhar a família durante as refeições, não pode permanecer sozinho no quarto e também não pode frequentar determinadas áreas da propriedade.

O problema é ainda maior quando elas não foram comunicadas anteriormente ou quando, consideradas em conjunto, tornam difícil aproveitar a experiência.

É possível que o hóspede descubra que não consegue realizar boa parte das atividades que havia planejado.

Essa situação ilustra algo que considero fundamental: a experiência pet friendly começa na informação que o cliente recebe antes de decidir comprar.


O estabelecimento informa quais animais recebe? Existem restrições de porte, quantidade ou acesso a determinados espaços? As taxas adicionais estão claras? As regras são apresentadas antes da reserva?

E, principalmente, essas informações permitem que a família compreenda se aquela hospedagem é adequada para suas necessidades?


Já escrevi sobre essa questão sob a perspectiva de quem viaja, no artigo Como escolher uma pousada pet friendly para viajar com seu cachorro.


Ao olhar para essa mesma experiência do ponto de vista das empresas, percebemos que a transparência não é apenas uma questão de atendimento, ela também faz parte da qualidade do serviço oferecido.

E isso não se limita aos meios de hospedagem. Em um passeio turístico, por exemplo, podemos incluir uma visita cultural, uma experiência gastronômica ou uma atividade de interesse principalmente humano.


Na Cãomigo, nossos roteiros frequentemente combinam diferentes experiências, como trilhas, visitas a atrativos, atividades na natureza e refeições.

Nem todas as etapas de uma programação precisam ser exclusivamente voltadas aos animais. O importante é considerar suas necessidades ao longo da experiência.


Um cachorro pode acompanhar tranquilamente a família durante um almoço e, em outro momento, ter oportunidades adequadas para caminhar, explorar o ambiente, farejar e descansar.

A questão não é oferecer atividades para cães o tempo inteiro, mas reconhecer que eles também participam da experiência.

Esse olhar é importante tanto para negócios especializados no público pet quanto para aqueles que recebem públicos diversos.


Pet friendly não deveria ser apenas uma estratégia de marketing

É natural que as empresas busquem novas oportunidades de negócios.

O interesse crescente por produtos, serviços e experiências voltadas aos animais abre possibilidades para diferentes setores, especialmente turismo, hospitalidade e entretenimento. Mas existe uma diferença importante entre identificar uma oportunidade comercial e estar preparado para atendê-la.

E talvez seja justamente aqui que esteja um dos maiores desafios do mercado pet friendly.


Quando uma empresa anuncia que recebe cães, ela não está apenas ampliando seu público potencial. Está assumindo compromissos relacionados à experiência que oferece.

Isso exige planejamento, preparação, comunicação e disposição para reconhecer os próprios limites.


Talvez determinado evento não tenha condições adequadas para receber animais.

Talvez um hotel precise rever algumas regras antes de ampliar esse atendimento.

Talvez um restaurante descubra que pode receber muito bem famílias com cães utilizando uma parte específica de sua estrutura.

Ou talvez uma empresa perceba que seu produto ou serviço não precisa envolver a presença de animais para ser interessante ao público pet.


Todas essas possibilidades podem representar decisões legítimas e responsáveis.

A questão não deveria ser quantos negócios conseguem incorporar a expressão pet friendly às suas estratégias de comunicação.

Deveria ser quantos estão realmente preparados para oferecer aquilo que anunciam.


Existe, inclusive, uma diferença entre atender pessoas que possuem animais e desenvolver experiências pensadas para a presença desses animais.

Uma empresa pode conquistar consumidores que fazem parte de famílias multiespécies sem necessariamente precisar convidá-los a levar seus cachorros para todas as atividades.

Um empreendimento pode apoiar causas relacionadas à proteção animal, oferecer produtos específicos ou desenvolver iniciativas voltadas aos tutores sem precisar se apresentar como um espaço de convivência com cães.


Não há nada de errado em explorar comercialmente o mercado pet.

O problema começa quando a promessa de acolhimento aos animais não corresponde à realidade da experiência oferecida.

E, nesse cenário, o termo pet friendly corre o risco de se tornar apenas mais um argumento publicitário.


Existe, inclusive, uma expressão que ajuda a compreender esse fenômeno: pet washing.

Por analogia ao greenwashing, utilizado para descrever práticas de comunicação que transmitem uma imagem de responsabilidade ambiental não sustentada pela realidade, o termo pet washing vem sendo empregado para questionar empresas que exploram o discurso pet friendly sem demonstrar um compromisso correspondente com as necessidades dos animais.


No turismo, podemos pensar nessa situação quando um estabelecimento utiliza a presença de cães como diferencial comercial, mas a experiência oferecida não corresponde às expectativas criadas pela comunicação.


Isso não significa que toda empresa despreparada esteja praticando pet washing, nem que estabelecimentos com regras ou limitações deixem de ser pet friendly.


A questão está na coerência entre o que se anuncia e o que efetivamente se oferece.

E talvez esse seja um dos maiores riscos da popularização da expressão pet friendly: quando tudo passa a receber esse nome, fica cada vez mais difícil distinguir o acolhimento responsável de uma estratégia de marketing.


O verdadeiro pet friendly começa com uma escolha consciente

Acredito que estamos vivendo um momento importante para o desenvolvimento de experiências voltadas às famílias multiespécies.

Cada vez mais pessoas desejam incluir seus animais nos momentos de lazer, nas viagens e na convivência social. E considero muito positivo que empresas de diferentes segmentos estejam olhando para esse público com mais atenção.

Mas essa transformação precisa acontecer com responsabilidade.


Não basta ampliar a quantidade de lugares que permitem a entrada de animais. Precisamos também melhorar a qualidade das experiências oferecidas.

E essa responsabilidade não pode ficar exclusivamente nas mãos dos tutores.

As empresas também precisam compreender as necessidades dos animais, conhecer as características dos públicos que desejam atender e avaliar se suas estruturas e operações estão preparadas para isso.

Não se trata de exigir que todos os estabelecimentos tenham grandes áreas verdes, atividades exclusivas para cães ou estruturas semelhantes às de negócios especializados.

Trata-se de oferecer condições adequadas à proposta anunciada, comunicar as regras com transparência e reconhecer quando determinado ambiente ou atividade não é indicado para receber animais.


No artigo Nem tudo que é pet friendly é bom para o seu cachorro. Você já pensou nisso?, faço uma reflexão sobre como os tutores podem avaliar se determinada experiência é realmente adequada para seus cães.

Aqui, quero ampliar essa responsabilidade para quem está do outro lado: as empresas que criam, organizam e oferecem essas experiências. Porque considero que o desenvolvimento responsável do turismo pet friendly depende dessa combinação.


De um lado, tutores conscientes das necessidades e características de seus animais.

Do outro, empresas preparadas para acolhê-los de maneira adequada.

E, entre ambos, profissionais que compreendam as particularidades de trabalhar com famílias multiespécies.

Por isso, antes de acrescentar a expressão pet friendly à divulgação do próximo produto, serviço ou evento, talvez valha fazer duas perguntas:

Faz sentido incentivar a presença de cães nessa experiência?

E, se a resposta for sim:

Estamos realmente preparados para receber esses animais ou estamos apenas interessados nas pessoas que vêm acompanhadas deles?


Porque ser pet friendly não deveria ser apenas uma forma de atrair novos clientes.

Deveria ser um compromisso com a experiência e o bem-estar de todos os envolvidos, inclusive daqueles que não podem nos dizer, com palavras, quando alguma coisa não está bem. 💛🐾


Seu hotel ou pousada está realmente preparado para receber hóspedes com cães?

Se você administra um hotel, pousada ou outro meio de hospedagem que já recebe animais, ou está considerando começar a atender esse público, que tal olhar para o seu próprio negócio a partir dessa reflexão?


A Cãomigo desenvolveu um diagnóstico pet friendly gratuito para meios de hospedagem, com perguntas que convidam os gestores a refletir sobre suas práticas, reconhecer pontos fortes e identificar aspectos que merecem atenção.



Você é guia de turismo e deseja atuar com famílias multiespécies?

A Cãomigo também desenvolve uma formação em turismo pet friendly para guias de turismo e mantém o Programa de Multiplicadores, uma rede de profissionais que compartilham conhecimentos e experiências para desenvolver passeios e viagens com cães de maneira responsável.



Para saber mais: estudos que embasaram esta reflexão

MELLOR, D. J. et al. (2020). The 2020 Five Domains Model: Including Human–Animal Interactions in Assessments of Animal Welfare. Animals, 10(10), 1870.


GRIGG, E. K. et al. (2021). Stress-Related Behaviors in Companion Dogs Exposed to Common Household Noises, and Owners' Interpretations of Their Dogs' Behaviors. Frontiers in Veterinary Science, 8, 760845.


HALL, E. J. et al. (2022). Risk Factors for Severe and Fatal Heat-Related Illness in UK Dogs—A VetCompass Study. Veterinary Sciences, 9(5), 231.



Sobre a autora

Sharlene Irente é fundadora da Cãomigo, empresa especializada em experiências turísticas para famílias multiespécies, e mestranda em Turismo pela Universidade de São Paulo (USP). Sua atuação reúne a experiência prática na organização de atividades com cães e o interesse acadêmico pelas relações entre humanos, animais e turismo pet friendly.

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