O que é família multiespécie?
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O que é família multiespécie e por que esse conceito explica muito sobre como a gente vive hoje.

Se você tem um pet em casa, provavelmente já ouviu alguém dizer, ou provavelmente já disse, que ele é um membro da família, não é mesmo?
Talvez já tenha dito até que ele tem lugar fixo no sofá, que você muda de planos por causa dele, que sente falta quando viaja sem ele. Talvez você já tenha percebido que organiza seu dia pensando nele, que comemora o aniversário dele, que ama mostrar a foto dele pras pessoas (até as desconhecidas kkk), e que conta histórias sobre ele como quem conta histórias sobre um filho. Acertei?
Isso não é exagero. Isso não é frescura. E definitivamente não é coisa de pessoa sem noção.
Isso tem nome. E tem ciência por trás.
Isso se chama família multiespécie. 🐾
Hoje a gente vai conversar sobre o que esse conceito significa, de onde ele vem, como ele se traduz em direitos, e por que ele explica tão bem a transformação que está acontecendo dentro das casas, das cidades e da sociedade brasileira.
O que é família multiespécie?
O conceito de família multiespécie descreve arranjos familiares formados por seres humanos e animais não humanos que coabitam um mesmo espaço e compartilham vínculos afetivos reais.

A definição parece simples, mas o que ela carrega não é. Porque não é só ter um pet em casa. Não é ter um "bicho de estimação" que fica no quintal e serve de guarda. Família multiespécie pressupõe que exista uma relação de pertencimento mútuo, de cuidado, de presença, e que o animal seja parte do núcleo familiar de forma genuína e afetiva, com toda a consideração que isso implica.
A pesquisadora Juliana Raposo Gomes de Souza, em estudo desenvolvido na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) sobre uma perspectiva sociológica da família multiespécie, aponta que o conceito surge como reflexo de transformações profundas nas configurações familiares contemporâneas e que o vínculo afetivo é o critério central para que um animal passe a compor esse arranjo.
No plano internacional, esse mesmo fenômeno é estudado sob o nome de "more-than-human families" — famílias mais do que humanas. Um artigo publicado na revista Sociology Compass em 2017 — de autoria de Leslie Irvine e Laurent Cilia — concluiu que os pets adquirem o status de membros da família por meio de conexões emocionais, nomeação e práticas domésticas compartilhadas. Você nomeia seu cachorro, você inclui ele na sua rotina, você faz rituais com ele — e isso, na prática social, o integra à família de forma legítima.
Por que o conceito de família multiespécie está em alta agora?
A nossa relação com os cães não é novidade. Ela data de pelo menos 14 a 35 mil anos, dependendo da fonte e do modelo de análise da domesticação. Em praticamente todas as culturas e civilizações registradas, os cães estiveram ao lado dos humanos. Caçavam juntos, viviam juntos, foram enterrados juntos.
O que mudou não é o vínculo. O que mudou é o contexto em que esse vínculo acontece.
A verticalização das cidades, a diminuição das famílias, o aumento dos lares com pessoas vivendo sozinhas, o adiamento da maternidade e da paternidade, as novas configurações dos arranjos familiares, tudo isso criou um cenário em que o animal passou a ocupar um espaço muito mais central na vida doméstica. Quando o quintal sumiu, o cão entrou para o apartamento. Quando o convívio ficou mais próximo, o vínculo afetivo ficou mais intenso. E quando o vínculo ficou intenso, os comportamentos mudaram.
O tutor de hoje não é o dono de cão da geração dos nossos avós. Essa é a diferença.
E os números deixam isso claro: segundo o Instituto Pet Brasil em parceria com dados do IBGE, o Brasil tem cerca de 160 milhões de animais de estimação — entre cães (62,2 milhões), gatos (30,8 milhões), aves, peixes, répteis e pequenos mamíferos. O país é o 3º maior mercado pet do mundo. O setor faturou R$ 75,4 bilhões em 2024, com crescimento de 9,6% em relação ao ano anterior. A projeção para 2025 é de R$ 77,2 bilhões.
E o um dado antigo, divulgado pelo IBGE em 2015, ainda é bastante relevante: temos mais cachorros do que crianças de até 14 anos nos lares brasileiros. Embora o levantamento tenha sido divulgado em 2015, ele continua sendo uma das evidências mais citadas da transformação da estrutura familiar brasileira. Isso não é uma curiosidade estatística, é um dado oficial que é um reflexo direto de uma transformação cultural pela qual estamos passando, que redesenha o que significa "família" para uma parcela enorme da população.
O que a ciência diz sobre o vínculo entre humanos e animais?
Aqui é onde o papo fica interessante de verdade, porque a família multiespécie não é só um conceito romântico ou sentimental. Ela tem base biológica, neurológica e psicológica. A ciência está aí para confirmar o que os tutores de cães já estavam carecas de saber.

A senciência animal: a base científica de tudo isso
Antes mesmo de falarmos sobre vínculo, afeto ou família multiespécie, existe um conceito fundamental que sustenta toda essa discussão: a senciência animal.
Senciência é a capacidade de sentir e experimentar estados subjetivos, como dor, prazer, medo, conforto, ansiedade, alegria e sofrimento. Em outras palavras, é a capacidade de ter experiências que importam para o próprio indivíduo.
Durante muito tempo, parte da ciência tratou os animais como seres movidos apenas por instintos e respostas automáticas. Mas esse entendimento mudou profundamente nas últimas décadas.
Um dos marcos mais importantes dessa mudança foi a Declaração de Cambridge sobre a Consciência, publicada em 2012 por um grupo internacional de neurocientistas durante um encontro realizado na Universidade de Cambridge, no Reino Unido, na presença do físico Stephen Hawking.
A declaração concluiu que as evidências científicas disponíveis indicam que os animais não humanos possuem os substratos neurológicos necessários para experiências conscientes e estados emocionais, incluindo mamíferos, aves e diversos outros grupos animais.
Em termos simples: os seres humanos não são os únicos capazes de sentir.
Esse reconhecimento científico não significa que cães e gatos pensem exatamente como nós, nem que experimentem o mundo da mesma forma. Significa algo muito mais importante: eles possuem experiências próprias, emoções próprias e interesses próprios.
É justamente por isso que conceitos como bem-estar animal, guarda compartilhada, luto pet, turismo pet friendly e família multiespécie passaram a ganhar relevância social, jurídica e econômica. Quando reconhecemos que os animais são seres sencientes, passamos a compreender que eles não são objetos dentro da família, mas indivíduos que participam das relações afetivas de maneira ativa.
A família multiespécie não nasce da ideia de que os animais são humanos. Ela nasce do reconhecimento de que eles são seres capazes de sentir, criar vínculos e compartilhar experiências conosco.
O loop de oxitocina: o amor que a gente troca com o olhar
Em 2015, uma equipe liderada pela pesquisadora Miho Nagasawa, da Universidade Azabu, no Japão, publicou na revista Science um estudo que mudou a forma como a ciência entende a relação entre humanos e cães. O estudo descobriu que quando humanos e cães trocam olhares, ambos apresentam aumento nos níveis de oxitocina — o mesmo hormônio liberado no vínculo entre mãe e bebê.

Isso não é metáfora. É bioquímica.
O mecanismo funciona como um ciclo de reforço positivo: o cão olha para o tutor, a oxitocina do tutor sobe, o tutor olha de volta com mais afeto, a oxitocina do cão sobe também. Os pesquisadores chamaram esse processo de oxytocin-gaze positive loop.
O mais impressionante é que esse mesmo mecanismo não foi encontrado quando lobos — parentes próximos dos cães — olhavam para seus tutores. O que indica que essa capacidade de criar vínculos hormonais com humanos através do olhar é uma característica que os cães desenvolveram ao longo de milênios de coevolução com a nossa espécie. Em outras palavras: eles evoluíram para nos amar. E nós evoluímos para amá-los de volta.
Cães, saúde mental e qualidade de vida
Segundo levantamentos divulgados pelo Human Animal Bond Research Institute (HABRI) revela que 74% dos tutores relatam melhora na saúde mental em decorrência da relação com seu animal. E 75% perceberam melhora na saúde mental de um amigo ou familiar próximo por causa da presença de um pet.
Os mecanismos biológicos envolvem a ativação do sistema límbico — a parte do cérebro responsável pelas emoções — e a liberação de endorfinas, serotonina e oxitocina durante o contato físico e a interação com os animais. Uma caminhada de 30 minutos com um cão já é capaz de desencadear esses processos, com efeitos mensuráveis no humor e na percepção de bem-estar.
Além disso, um artigo intitulado Love, fear, and the human-animal bond: On adversity and multispecies relationships, aponta que o vínculo com o cão funciona como uma âncora emocional estável, promovendo conexão não julgadora, segurança emocional e maior expressividade afetiva, inclusive em contextos de crise e adversidade.
Isso explica por que tantas pessoas disseram que seus cães foram fundamentais durante a pandemia. E por que as adoções explodiram no período de isolamento social. O vínculo multiespécie não é decorativo, ele sustenta.
Família multiespécie não é humanização dos pets: entendendo a diferença
Preciso fazer um parêntese importante aqui — porque uma coisa que aparece com frequência no debate sobre família multiespécie é a confusão com o conceito de humanização dos animais. E eles não são a mesma coisa.
Humanizar um animal é projetar sobre ele características, necessidades e comportamentos exclusivamente humanos, sem respeitar a natureza da espécie. É tratar um cão como se ele fosse uma criança de dois anos, ignorar suas necessidades etológicas, colocá-lo em situações de estresse porque "ele gosta de festa", ou alimentá-lo de formas que prejudicam sua saúde por pura projeção afetiva.
Família multiespécie é diferente. É reconhecer o vínculo afetivo real que existe entre humanos e animais, respeitando a individualidade de cada espécie dentro desse arranjo. É incluir o animal na dinâmica familiar com responsabilidade — garantindo sua saúde, seu bem-estar, sua expressão comportamental natural — porque ele é parte genuína do núcleo afetivo da casa.
Em uma família multiespécie bem estruturada, o cão é cão. Tem necessidades de cão, tem linguagem de cão, tem saúde de cão. Mas é tratado com o cuidado, a atenção e o amor que se dedica a um membro querido da família. E o gato é gato — com suas particularidades, sua independência, suas necessidades etológicas próprias, respeitadas dentro da dinâmica da casa.
É sutil, mas é fundamental. E faz toda diferença na qualidade de vida do animal.
Como a família multiespécie se reconhece no cotidiano
Você faz parte de uma família multiespécie?
Bom, por estar aqui no site da Cãomigo, provavelmente sim.Já que está por aqui, há grandes chances de você ter um pet em casa e o incluir na sua vida de forma afetiva.
Mas para ficar mais claro o conceito, vamos olhar para alguns comportamentos que ajudam a compreender o que é uma família multiespécie:
Inclusão na rotina e nas decisões: o animal não existe à margem da vida da família. Ele é considerado nos planos do dia, nas saídas, nas viagens, nas decisões de moradia. "Não podemos alugar esse apartamento porque não aceita pet" é uma frase de família multiespécie. Adaptar o horário de trabalho por causa dele também.
Cuidado ativo com saúde e bem-estar: vai muito além de vacina em dia. Inclui alimentação adequada, enriquecimento ambiental, acompanhamento veterinário preventivo, avaliação comportamental quando necessário. Cuidar de um membro da família é diferente de "cuidar de um bicho".
Vínculo afetivo reconhecido: o luto pela perda de um pet é real, profundo e muitas vezes devastador — e hoje começa a receber o reconhecimento que merece. Perder um animal que era membro da família é uma perda de luto, com todas as suas fases e intensidade emocional.
Presença em eventos sociais: passeios, viagens, encontros, celebrações — o pet está junto. Os eventos pet friendly não são exceção curiosa no calendário social: são o novo normal de quem tem família multiespécie. E não é por acaso que esse segmento cresce tanto.
Tomada de decisão coletiva: destino de viagem, tipo de moradia, jornada de trabalho, decisões sobre ter filhos humanos — tudo passa pelo filtro de "e o pet?". Quem tem família multiespécie sabe que o animal é variável relevante nas equações da vida.
Pertencimento e parentesco afetivo: o pet ganha nome, ganha data de aniversário comemorada, ganha espaço nas fotos de família, é apresentado como filho, irmão ou sobrinho. Os familiares humanos ganham novos títulos: avós de pet, tios, padrinhos. A rede afetiva se expande para incluir o animal de forma natural.

O impacto da família multiespécie no mercado e nos serviços
A família multiespécie não é só uma transformação cultural — ela transforma mercados inteiros.
Quando 160 milhões de animais vivem em lares brasileiros e são tratados como membros da família, os tutores passam a exigir produtos e serviços com um nível de qualidade e cuidado proporcional ao vínculo que têm com eles. E o mercado precisa correr para acompanhar.
No turismo, isso é especialmente evidente. O tutor que antes aceitava um "quarto no térreo com saída para o jardim" como um favor do hotel, hoje exige área de lazer, cardápio pet, espaços seguros e equipe treinada para receber animais. E tem razão em exigir — porque o mercado cresceu, a oferta cresceu e a consciência do que é um serviço de qualidade também cresceu.
O Ministério do Turismo, em parceria com a Embratur e a Braztoa, incluiu o turismo pet friendly como uma das tendências prioritárias do setor na Revista de Tendências do Turismo 2026 — reconhecendo formalmente uma demanda que a família multiespécie já impunha ao mercado há anos.
Na alimentação, a família multiespécie impulsionou a explosão da pet food premium. Tutores que se alimentam com atenção à qualidade e origem dos ingredientes passaram a exigir o mesmo para seus animais. O segmento de alimentos naturais, funcionais e superpremiuns cresce ano a ano exatamente por isso.
Na saúde, a medicina veterinária avançou de forma impressionante para atender às demandas de quem trata o pet como família. Oncologia veterinária, cardiologia, neurologia, fisioterapia, acupuntura, medicina integrativa — serviços que antes eram exclusivos da medicina humana hoje são acessíveis (e cada vez mais procurados) para os animais.
Na habitação, projetos arquitetônicos passaram a incluir espaços pensados para pets: banheiros de entrada para higienização das patas, paredes revestidas com materiais de fácil limpeza, varanda com telas, áreas gourmet adaptadas. A família multiespécie literalmente muda o projeto da casa.
A família multiespécie no direito brasileiro
O Brasil está se movendo — ainda com a lentidão característica das transformações legislativas — para reconhecer juridicamente o que a sociedade já vive na prática.
O Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM) já trata da família multiespécie como entidade familiar passível de proteção jurídica. A base argumentativa parte do artigo 226 da Constituição Federal, que protege a família sem definir um modelo único, aliada ao princípio da afetividade como critério constitutivo de família — o mesmo que fundamentou o reconhecimento das uniões homoafetivas e de outros arranjos familiares não tradicionais.
Um elemento central desse debate é a senciência animal — o reconhecimento científico e jurídico de que os animais são seres capazes de sentir dor, prazer, medo, alegria e sofrimento. O Brasil já reconhece a senciência animal em sua legislação ambiental, e esse reconhecimento serve de alicerce para o avanço dos direitos dos animais no âmbito familiar.
O Projeto de Lei 179/23, em tramitação na Câmara dos Deputados, é um passo concreto nessa direção. Entre as propostas discutidas no âmbito do Projeto de Lei 179/23 estão:
O direito do animal a ter sua saúde, alimentação e bem-estar garantidos como membro da família;
A regulamentação da guarda compartilhada de animais em casos de separação ou término de união estável — já uma realidade em decisões judiciais pelo país, mas ainda sem uniformização legal;
O direito de o animal receber herança, com seu tutor (ou, na ausência deste, o Ministério Público) administrando os bens em benefício do animal;
O aumento das penas para crimes contra animais, incluindo abandono (de dois a cinco anos de prisão) e restrição de liberdade ou impedimento de alimentação;
A representação do pet na justiça pelo tutor, pela Defensoria Pública ou pelo Ministério Público.
Pesquisadores publicados em periódicos jurídicos brasileiros — como a Revista de Direito da UNC e publicações do IBDFAM — analisam como o vínculo afetivo entre humanos e animais se enquadra nos princípios constitucionais da afetividade, solidariedade e dignidade. Não é uma discussão simples. Mas é uma discussão que está acontecendo — e que avança.
O luto na família multiespécie: a dor que a sociedade ainda precisa aprender a respeitar
Um dos aspectos mais subvalorizados da família multiespécie é o que acontece quando o animal morre.
O luto pela perda de um pet é real, intenso e clinicamente reconhecido. Pesquisas na área da psicologia do luto apontam que a intensidade do sofrimento pela perda de um animal de estimação pode ser equivalente à perda de um familiar próximo — porque, para muitos tutores, é exatamente isso que foi.
O problema é que esse luto frequentemente não recebe o reconhecimento social que merece. Quem já perdeu um pet sabe como é ouvir "mas era só um cachorro" ou "você pode pegar outro". Essa invalidação do luto — que os especialistas chamam de luto disenfranchised (luto não reconhecido socialmente) — soma dor à dor.
O reconhecimento da família multiespécie como arranjo familiar legítimo tem um impacto direto nisso: ao validar o vínculo enquanto o animal vive, a sociedade também passa a validar a dor quando ele parte.
O Brasil multiespécie: um país que já mudou
Quando olho para os dados e depois olho para a rua, é difícil não sentir que estamos documentando uma transformação que já é irreversível.
O Brasil tem mais pets do que crianças. É o terceiro maior mercado pet do planeta. O setor movimenta mais de R$ 75 bilhões por ano. Cidades do interior estão erguendo dog parks. Shoppings estão construindo áreas para cães ao lado dos playgrounds. Restaurantes estão adaptando espaços. Hotéis estão redesenhando experiências inteiras.
Isso não acontece à toa. Acontece porque tem muita gente que faz parte de uma família multiespécie — e essa gente não abre mão de incluir seu animal nas experiências da vida. Não abre mão de viajar com ele, de passear com ele, de frequentar espaços com ele.
Na Cãomigo, a gente nasceu entendendo isso. Construímos cada experiência, cada auventura, cada produto pensando que do outro lado tem uma família — não um dono com um cachorro, mas uma família multiespécie que quer viver momentos juntos, com qualidade, com segurança e com a alegria que só quem tem um cão sabe o que é.
Tenho mais de 8 anos vivendo isso, e o que aprendi acima de tudo é que esse público não quer caridade do mercado. Não quer que o hotel "aceite" o cachorro de má vontade. Não quer sentir que está pedindo um favor. Esse público quer ser bem-vindo de verdade, com preparo, com estrutura e com respeito.
Esse é o futuro que a gente acredita. Um futuro em que a família multiespécie tem o espaço, o respeito e as experiências que merece.
Por que isso importa para além dos números
Tem um aspecto da família multiespécie que vai muito além dos dados de mercado e das pesquisas acadêmicas — e que eu acho que vale nomear.
Vivemos em um tempo de muito isolamento, de vínculos fraturados, de solidão urbana. As cidades cresceram, as famílias encolheram, as conexões se tornaram mais mediadas por telas. Nesse contexto, o vínculo com os animais funciona como um contraponto poderoso.
O cão não te julga pelo seu salário, pela sua produtividade, pela sua aparência. Ele te vê. Ele está presente. Ele cria um tipo de conexão que é incondicional de um jeito muito raro na vida adulta moderna.
A família multiespécie não é uma compensação por algo que falta. É uma forma legítima, afetiva e cientificamente sustentada de estar em relação com outro ser. E em um mundo onde a solidão virou questão de saúde pública — a OMS a reconheceu como epidemia global em 2023 — isso tem peso enorme.
Não à toa, o vínculo humano-animal começa a ser usado de forma terapêutica em diversas áreas: saúde mental, reabilitação, oncologia, cuidado com idosos, educação especial. A ciência reconhece o que os tutores sempre souberam, que essa relação cura, sustenta e humaniza.
Família multiespécie é o presente, não o futuro
Se você chegou até aqui — com seu peludo no colo ou com a memória dele na mente — você já sabe de tudo isso de um jeito que vai muito além de qualquer definição acadêmica.
Você vive isso.
Família multiespécie não é modismo. Não é capricho de geração. Não é coisa de gente que "trata bicho como gente". É uma forma real, documentada e crescente de organização afetiva e familiar — com raízes biológicas de milênios, base neurocientífica sólida, expressão social massiva e reconhecimento jurídico em construção.
E ela transforma tudo: a forma como você viaja, onde você mora, como você trabalha, como você consome, o que você exige do mercado, o que você espera dos espaços públicos.
O futuro do turismo é multiespécie. O futuro das cidades é multiespécie. O futuro dos serviços, da habitação, da medicina e do direito tem o animal como parte da equação.
Bem-vindos à realidade das famílias multiespécie. 🐾
O que é família multiespécie?
Família multiespécie é o arranjo familiar formado por humanos e animais não humanos que coabitam um mesmo espaço com vínculo afetivo real. O critério central é o afeto e o pertencimento mútuo, não apenas a coabitação.
Família multiespécie é o mesmo que humanização dos pets?
Não. Humanizar é projetar características humanas no animal sem respeitar sua natureza. Família multiespécie é reconhecer o vínculo afetivo com o animal enquanto se respeita sua etologia e suas necessidades próprias de espécie.
Família multiespécie tem reconhecimento legal no Brasil?
O conceito ainda não tem reconhecimento legal formal, mas o Projeto de Lei 179/23 tramita na Câmara e avança na direção desse reconhecimento. O IBDFAM já trata da família multiespécie como entidade familiar passível de proteção jurídica com base nos princípios constitucionais de afetividade.
A ciência reconhece o vínculo entre humanos e animais como equivalente ao vínculo familiar humano?
A ciência reconhece que o vínculo humano-cão ativa os mesmos mecanismos biológicos do vínculo entre mãe e bebê — incluindo a liberação de oxitocina durante o contato visual. O luto pela perda de um animal é clinicamente reconhecido como equivalente, em intensidade, ao luto pela perda de um familiar próximo.
Quantas famílias multiespécie existem no Brasil?
O Brasil tem cerca de 160 milhões de animais de estimação distribuídos nos lares brasileiros, com média de 1,8 pet por residência. Em termos de transformação cultural, dados indicam que mais de 80% dos tutores consideram seus animais membros da família — o que representa dezenas de milhões de famílias multiespécie no país.
O que muda na vida prática de quem tem uma família multiespécie?
Praticamente tudo: escolha de moradia, destinos de viagem, jornada de trabalho, decisões de consumo, configuração da casa, escolha de serviços. A família multiespécie organiza sua vida incluindo o animal como variável relevante em todas as decisões importantes.
Referências:
Nagasawa, M. et al. (2015). Oxytocin-gaze positive loop and the coevolution of human-dog bonds. Science, 348(6232), 333–336. DOI: 10.1126/science.1261022. PubMed | Science.org
Applebaum, J.W., MacLean, E.L. & McDonald, S.E. (2021). Love, fear, and the human-animal bond: On adversity and multispecies relationships. Comprehensive Psychoneuroendocrinology, vol. 7. PMC8415490
Irvine, L. & Cilia, L. (2017). More-than-human families: Pets, people, and practices in multispecies households. Sociology Compass, 11, e12455. DOI: 10.1111/soc4.12455.https://doi.org/10.1111/soc4.12455
Souza, J.R.G. (2022). #filhodequatropatas: uma perspectiva sociológica sobre a família multiespécie. TCC — Ciências Sociais, UFSC. Repositório UFSC
Human Animal Bond Research Institute (HABRI). Mental health benefits of pet ownership. HABRI.org
Instituto Pet Brasil / Abinpet — Relatório do setor pet, 3º trimestre 2024.
Ministério do Turismo / Embratur / Braztoa — Revista de Tendências do Turismo 2026, pág. 35.
Projeto de Lei 179/23 — Câmara dos Deputados.
Low, P. et al. (2012). Cambridge Declaration on Consciousness. Francis Crick Memorial Conference on Consciousness in Human and non-Human Animals, University of Cambridge. https://philiplow.foundation/consciousness/?utm_source=chatgpt.com




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